Num tempo de grandes mudanças, muitos alimentam visões “fantásticas” de um futuro sem escolas e sem professores. As escolas seriam substituídas por diferentes situações de aprendizagem, em casa e noutros lugares, através de momentos presenciais e virtuais. Os professores seriam substituídos por dispositivos tecnológicos, reforçados pela inteligência artificial, orientando a aprendizagem de cada criança, de forma personalizada, graças a um conhecimento aprofundado do seu cérebro e das suas características.


Seria um futuro sem futuro, pois a educação implica a existência de um trabalho em comum num espaço público, implica uma relação humana marcada pelo imprevisto, pelas vivências e pelas emoções, implica um encontro entre professores e alunos mediado pelo conhecimento e pela cultura. Perder esta presença seria diminuir o alcance e as possibilidades da educação.

Hoje, mais do que nunca, precisamos dos professores. O próximo relatório internacional da UNESCO tem um título que diz muito: Reimagining our futures together: A new social contract for education. Os professores são indispensáveis para construir os futuros da educação, criando as condições para uma educação partilhada, através da qual os alunos aprendam a pensar, a colaborar e a estudar juntos.

Recordo-me de três professores extraordinários que marcaram a minha vida no Liceu Nacional de Oeiras, no final da década de 1960:

- Luís Ardisson Pereira, professor de Filosofia, ensinava-nos a pensar – num tempo de ditadura, o seu ensino respirava liberdade, colocava-nos perante problemas, obrigava-nos a perguntar, e a tentar responder, era um exemplo notável da uma pedagogia da autonomia;

- José Esteves, professor de Educação Física, ensinava-nos a colaborar – para ele, o desporto era um exercício de cooperação, e até de cidadania, uma forma de nos relacionarmos uns com os outros e de agirmos em conjunto, não de competirmos;

- Marinete Leitão, professora de Matemática, ensinava-nos a estudar – no seu magistério exigente reconheço as palavras sábias do filósofo francês Alain: “difícil é conseguir que, no fim, as crianças se agradem com aquilo que, no princípio, não lhes agradava nada”.


A história da profissão docente é feita de exemplos notáveis, como estes que referi a partir da minha própria experiência. No presente, em todo o mundo, continuamos a encontrar professores extraordinários que inspiram e transformam a vida de milhões de crianças e de jovens. A educação é sempre uma relação humana e intergeracional. A pandemia serviu para mostrar que os professores são mesmo insubstituíveis.

António Nóvoa
Paris, 2021