As dificuldades escolares


As crianças aprendem com a escola; mas nem sempre a escola aprende com as crianças. E não seria mau que isso acontecesse se, perante os desafios que as crianças lhe colocam, a escola, também em relação a si própria, aceitasse que as respostas surgem das perguntas. E que as respostas que se procuram à margem das perguntas que não se colocam são soluções (“mágicas”) que talvez escondam a “preguiça” de não perguntar. Ora, se há aspetos em relação aos quais a escola parece, por vezes, procurar mais soluções do que pôr perguntas, as razões pelas quais algumas crianças parecem não aprender como “as outras” está à frente de todos os demais.

É claro que há crianças que chegam à escola muito doentes. É claro que há crianças que, por quererem muito ser “as melhores”, “bloqueiam”. É claro que há crianças cuja “química” com um professor não é a melhor. É claro que há crianças com tanto medo de falhar que parecem ter medo de ter medo e não acertam nem sequer aquilo que sabem. Há crianças tão impulsivas que pensam demasiado “na diagonal” e complicam o fácil. Há crianças tão livremente intuitivas que não aprendem da forma como a escola imagina que todas as crianças aprendem. Etc. Etc. Todas elas têm dificuldades, claro. Mas, se a forma como se organizam as dificuldades escolares não depende só das crianças, sempre que uma criança tem dificuldades a responsabilidade disso acontecer parece ser só (ou sobretudo) sua. E diante delas a escola procura soluções. Mas não pergunta tanto como devia.

E, por mais que todas as crianças sejam inteligentes, sensíveis e atentas, a escola desenvolveu, em relação às dificuldades escolares de algumas delas, uma espécie de sistema de alarme com dois degraus de perigo diferentes: "Tenho 28 alunos na sala e não posso dar atenção a todos ao mesmo tempo"  e "Ele não acompanha os colegas" - que não as ajuda em quase nada.
Escusado será dizer que, em relação a cada um deles, os pais ficam de coração encolhido. E entram numa agitação própria de quem se sente tanto mais preocupado quanto os alarmes quase nunca lhes chegam acompanhados nem de motivos possíveis para que as dificuldades existam nem de soluções para que deixem de existir.

É claro que não cabe aos pais “dar” a matéria que a escola não dá. Nem cabe aos pais pôr os seus filhos a acompanhar as aprendizagens dos colegas, aparentemente mais expeditos, quando a escola não o consegue fazer. Por mais que caiba aos pais  insurgirem-se quando, numa turma, há o grupo dos “mais atrasados” e o grupo dos “mais adiantados”. Quando se institui, como uma banalidade com que todos convivem, que “os mais adiantados” ajudem “os mais atrasados”. Como cabe aos pais que se insurjam contra as direções das escolas que atribuem 28 (!) alunos a um professor e lhe exigem que ele tenha desempenhos amigos do sucesso, independentemente da forma como se constituem as turmas, do modo como se organizam os programas e da forma como se imagina que as crianças aprendem todas da mesma forma e à mesma velocidade. E cabe aos pais que não se permita que, quando as crianças “não acompanham” os colegas, se assuma que isso quer dizer que querem ficar para trás. Ou que são preguiçosas. Ou pouco motivadas. Ou distraídas. Que não conseguem acertar o passo com “os melhores”. Ou que são, “naturalmente”, mais limitados. Menos capazes. Ou - sem que nunca ninguém o diga de forma clara - mais... “burras”.

O importante é que os pais aceitem que, em relação às dificuldades exilares, os seus filhos serão mais vítimas do que responsáveis. E que, atendendo à forma como os professores ficam desamparados pelas direções das escolas diante das dificuldades das crianças, que eles não deixam de ser vítimas, também. Trata-se, então, de pôr a escola e quem a dirige a reunir os seus professores mais competentes e mais experientes e colocá-los a ajudar os seus colegas com instrumentos psicopedagógicos que resolvam as dificuldades das crianças. Depois das perguntas devidas e das respostas a que se chegue. Mas sem nunca ficarmos, unicamente, pelas constatação das dificuldades. Que, vistas só assim, parecem querer dizer que todas as crianças são iguais na forma como aprendem. Por mais que haja crianças “com defeito”...





                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   Por Eduardo Sá  
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

       
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