Quanto vale a universidade?


Um dia, vamos ter perceber o que se pretende da universidade. Por agora, parece ser um objetivo de uma vida. Aquilo que faz com que os adolescentes, aos 14 e aos 15, entrem no 10.º ano com uma mão-cheia de expectativas, em setembro, e se sintam a comprometê-las (por vezes, de forma quase irreparável) um mês e meio depois. Sem que ninguém pare e se pergunte se não será verdade que, até ao 9.º ano, ninguém os ensinou a estudar e se eles não terão aprendido, somente, a “safar-se”, escutando as coisas, “no ar”, durante as aulas, e passando por elas, de véspera, antes dos testes, fazendo a sua inteligência e o improviso o resto com que se cria o “sucesso”.

Um dia, vamos ter de perguntar se aquilo que se passa no Ensino Secundário é mesmo verdade, onde as notas se conseguem, muitas vezes, com mérito, claro, mas onde o número de alunos que tem horas e horas de explicações é inquietante. Há também aqueles que têm “equipas” a trabalhar para o seu sucesso, o que não pode ser ignorado, e há ainda o “pó de arroz” nas notas que roça, por vezes, a desonestidade gritante, como se a vida acabasse aos 18, com a entrada na universidade, com uma quebra abrupta de todos os “apoios” e com a necessidade de capitalizar os recursos que, muitas vezes, não se desenvolveram.

Um dia, vamos ter de perceber se é solução que a vida deles vire um inferno em torno dos valores decimais e que, depois, haja um terço dos alunos que entraram na universidade que abandonam os seus cursos, um número imenso de outros que saltitam de curso em curso e um número nada despiciendo de mais outros que reprovam, porventura, vezes demais, ao longo dela.

Um dia, vamos ter de avaliar as universidades pela forma como selecionam, elas mesmas, os seus alunos, à entrada, e lhes oferecem uma formação singular que articula a sabedoria com a sua dimensão utilitária. E pelo modo como colocam as pessoas que formam, 5 e 10 anos depois, em projetos profissionais dos quais seja legítimo que reclamem as suas responsabilidades.

Um dia, vamos ter de perceber se, na universidade, os alunos ganham se os seus professores preferirem a investigação ao ensino, mesmo que isso se traduza numa espécie de “linha de produção” de papers de relevância científica duvidosa. E se eles estiverem vergados a uma burocratização do ensino que confunde os números com a qualidade, onde os curricula são pensados mais em favor da gestão de poderes dos professores do que das necessidades reais dos estudantes, e onde, até aí, o “pó de arroz” nas notas dos anos terminais se aproxima da “publicidade enganosa”.

Um dia, vamos ter de discutir se vale mais termos diplomas universitários no desemprego ou em tarefas esdrúxulas, considerando a sua formação, por mais que estudar sempre mais seja uma benção, ou uma política universitária mais direcionada para as necessidades de quem se forma em detrimento das necessidades “estruturais” das próprias universidades.

Um dia, vamos ter de discutir se é justo todos pagarem o mesmo de propinas na universidade, sobretudo quando se leva todo o percurso educativo a supor que o ensino público merece reservas, por falta de qualidade, e, depois, chegados à universidade, todas as famílias pagam o mesmo, o que faz que todas elas, mesmo as mais desfavorecidas, subsidiem o ensino universitário de todas, mesmo das mais favorecidas.

Um dia, vamos ter de perceber o que queremos da universidade. Será que ela deve ser ensino obrigatório, universal, e tendencialmente gratuito, e que todos ganham se tiverem um curso ou se,  antes de fazermos com que os números da universidade se democratizem pela gratuitidade, devamos pensar o que queremos que o Ensino Secundário traga à universidade e o que ela pode trazer a um país, em vez de transformarmos em discurso ideológico aquilo que será melhor que seja só um compromisso político, transversal às varias perspetivas ideológicas, pensado em nome da verdade e do futuro.

Um dia, vamos ter de deixar de falar só nas propinas, gratuitas, e passar a falar na bênção que uma universidade que pensa pode trazer a um país que parece tardar em pensar.



                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   Por Eduardo Sá  
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

       
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