Carta ao Pai Natal


Querido Pai Natal,
Queria pedir-te que me trouxesses, como prenda, uma escola mais amiga das crianças.
Uma escola onde não seja preciso estar tantas horas - como eu estou - compenetrado, sossegado e calado.
E onde cada um possa ser como é. E aprender das formas como seja capaz. E, ainda assim, não deixarmos todos de aprender com as diferenças uns dos outros.
E queria, também, pedir-te que os presentes maiores que a escola tenha para nos dar sejam o direito a não perdermos o entusiasmo, sempre que se trata de aprender; e o dever de sermos todos “línguas de perguntador” logo que nos desafiam a escutar.
E queria - muito! - pedir-te que a escola seja um lugar onde todos as crianças possam ter um gang de sonhos que, de forma desordeira, nos deixe lutar pelos sonhos uns dos outros.
Queria, ainda, pedir-te - porque é Natal - que os recreios não tenham ninguém a proibir-nos de nos sujarmos e de andarmos em correrias atabalhoadas, e que nos deixem ter o direito à algazarra, sem que fiquem alarmados, só por sermos crianças.
E queria pedir-te que passem a ser obrigatórios os trabalhos de casa para todas as crianças. E que, à frente de todos eles, esteja o dever de brincar. E, logo a seguir, o direito de criar um inventário onde se guardem todos as ideias estrambólicas que as crianças espantam para longe de si por falta de quem as escute e de quem as guarde. E, depois, o dever de haver testes-surpresa; todos os dias! Sobretudo acerca de tudo aquilo que as crianças matutam e congeminam, e que só ”conversam com os seus botões”. E que, por distração de quem cuida de nós, fica guardado na casa das histórias que, bem vistas as coisas, é a nossa cabeça.
E queria pedir-te que só as pessoas irrequietas possam ser nossos professores. E as tagarelas, também. E, já agora, aquelas que nos fazem pensar sobre o que existe à nossa volta. Ah! E, também, aquelas que trocam historietas connosco como quem troca cromos. E que nos ajudam a ser, com a sua distração, atentos para as suas paixonetas acerca de tudo aquilo que nos contam.
E queria, também, pedir que não nos obriguem a tirar sempre boas notas. Mesmo quando não aprendemos! E que, quando ainda nem sequer sabemos quem somos, deixem de esperar, com todas as certezas, que saibamos - exatamente - aquilo que queremos ser.

Querido Pai Natal,
Queria pedir-te que a escola deixe de andar cansada connosco. E que nunca deixe de reconhecer que por trás de quem procura conhecer está sempre o direito de termos quem nos dê presentes novos, todos os dias. Por mais que essa pessoa seja magrinha e não se vista de encarnado, claro. Mas o que queria, de verdade, é que, mal eu chegue à escola (rezingão ou estremunhado), não seja preciso reclamar que nos ensinem que Natal é quando duas pessoas que se aprendem uma à outra nunca desistem de aprender.
Eduardo Sá


 
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