A escola morreu. Viva a escola!


1.
A escola que temos - que foi a invenção (lindíssima!) com que o Homem democratizou o mundo e o tornou mais amável e mais humano (“coisa” que, nos dias que correm, olhando para muitos episódios, dos refugiados à deriva política, por exemplo, quase parece estranho), ao fim de mais de 100 anos... morreu! Como terão morrido alguns dos pressupostos com que, hoje,  ela ainda funciona. Tais como aquele que a leva a pressupor que todas as crianças, mal entram na escola, aprendem “do zero”, da mesma forma e à mesma velocidade. Como terá morrido - felizmente! - o equívoco que, não há muito, assolou a escola que fez com que, a determinado momento, ela parecesse querer transformar-se numa espécie de “linha de montagem” de “jovens tecnocratas de sucesso” (legitimando as turmas “de primeira” e “de segunda”, os alunos “de primeira” e “de segunda”, as áreas de estudo “de primeira” e “de segunda” e as disciplinas “de primeira” e “de segunda”), como se a escola, em vez de aproveitar as singularidades e de as matizar com pluralidade, servisse mais para excluir do que para incluir. Como estará, também, a morrer a ideia de que será com as novas tecnologias que se reinventa a escola, mesmo que ela tenha, ainda, “vícios de forma” que vêm do século XIX, uma ideia de professor que, por vezes, ficou no século XX, alunos do século XXI e desafios para o próximo século que parecem nem sempre caber nas respostas que ela fornece. E terá morrido - felizmente - a ideia de que a escola se constrói de cima para baixo e de fora para dentro, ou sem os professores e sem os pais. Mas, à medida que vão caindo equívocos que a têm “constipado”, tarda em existir uma ideia estruturante de escola que nos leve a afirmar: “a escola morreu;  viva a escola!”,  que nos desafiem a antecipar o futuro. Por mais que, acerca do futuro, todos rejubilem com o “expansionismo” que a tecnologia virá a assumir, ocupando o lugar das pessoas, como se muitas pessoas juntas, a pensar de forma cúmplice, não representassem algoritmos mais complexos que o de um qualquer robot, e como se a inteligência artificial fosse o futuro (quando a escola, mais do que será o seu desejo, a vai estimulando... quando pressupõe, desde há muito, que os bons alunos são aqueles que tiram boas notas e as boas notas se conseguem repetindo... mais do que recriando).

2.
Em relação à escola, seremos todos “operários; em construção”. E se, em grande parte do século XX, se percebia que a centralidade das decisões acerca da escola correspondia ao medo de que a autonomia se transformasse num apelo desmedido em nome da liberdade; ou se, desde o 25 de abril, centralizar-se a educação se entendia porque havia que recuperar, no mais curto espaço de tempo, a trágica opção que condenou várias gerações ao analfabetismo e ao obscurantismo; hoje, a escola reclama:
  • melhor conhecimento das crianças e da sua forma de pensar (que a escola, muitas vezes, não tem!);
  • mais liberdade para que cada escola corresponda a um projeto educativo singular;
  • mais emancipação para inventar métodos e práticas pedagógicas amáveis para com a educação;
  • e mais determinação no sentido de, ao não separar (nunca mais!) educação infantil e escolaridade obrigatória, tornar a escola um laboratório da liberdade, uma  oficina da justiça, um ginásio da diversidade, um “refeitório” para a inclusão e no recreio da sabedoria.

É verdade que, ao contrário daquilo que a escola, por vezes, imagina, as crianças, sempre que lá chegam, já têm conhecimentos, experiência, pontos de vista e sabedoria. Mas a escola - quando confunde estudantes com alunos ou sempre que distingue alunos com base no seu sucesso (como se as crianças não fossem todas sensíveis, intuitivas e inteligentes), escuta e aprende com dificuldade. Pode uma escola desatenta para a sabedoria das crianças querê-las atentas para outras matérias para além da sua distração? Jamais!

Sendo assim, é urgente que, por uma vez, a educação se transforme num pacto de regime. E se assuma o que se pretende da escola e das crianças. Podem as crianças continuar a crescer neste equívoco trágico que leva muitos pais a supor que mais escola é melhor escola? Podem as crianças estar mais horas na escola que os pais nos trabalho e, como se não bastasse, terem ateliês de tempos livres, academias de estudo e centros de explicações (que são atividades escolares parte 2, parte 3 e parte 4), transformando a infância que não vivem num “banco de horas” do qual jamais virão a usufruir? E podem milhares e milhares de crianças deste país ser quimicamente condicionadas como se vivêssemos numa epidemia atípica de déficits de atenção e de crianças hiperativas, não havendo quem se pergunte como se pode estar quieto, calado e atento numa aula quando muitas crianças, em Portugal, trabalham das 8 às 8, estão tempo demais na escola e têm recreios de 5 e de 10 minutos entre aulas de 90 minutos? Com se pode estar quieto, calado e atento quando nem sempre as crianças têm os professores que mereceriam e quando aprendem debaixo do stress que muitas escolas colocam sobre elas, quando as querem a trabalhar para a sua vaidade, a propósito dos rankings, e debaixo do stress com que muitos pais as “intoxicam”, quando lhes exigem os resultados escolares que eles nunca tiveram)?

3.
As crianças amam a escola! Mas a escola não tem amado as crianças. E deve-lhes isso; com urgência! A escola, todas as escolas, deviam ser uma “república das crianças”. Onde, considerando a escola, as crianças sejam o principal e os professores o indispensável. E onde cada professor não perca de vista que, sempre que uma criança conhece, ela faz três perguntas: “o que é isto?”; “porquê???” e  “para que é que serve?”. E sobre tudo aquilo que ela aprenda é suposto que uma criança pense, discorra, fale e empreenda. É por isso que a escola tem de incentivar a singularidade, animar a diversidade e  acolher a parceria. E, já agora, tem de prescindir dos alunos que se “matam” a estudar e acarinhar aqueles que passeiam os livros e se passeiam nos livros. Sem nunca perder de vista que aprender é esperar. Mas, muito mais que esperar é, também, escutar, perguntar, duvidar e exigir.

4.
O simples, meus amigos, é o extraordinário. E é por isso que a escola que queremos não é uma miragem. A escola que todos queremos já nasceu! E as mais de 1000 candidaturas desta primeira edição da Escola Amiga da Criança são um exemplo desafiante disso mesmo. E o projeto do Agrupamento de Escolas de Lousada, que mereceu o nosso entusiasmo, é um exemplo de simplicidade e de sabedoria, só possível quando a direção de uma escola, os seus professores, os estudantes e os seus pais se tornam parceiros por amor pela escola.

5.
Com a Escola Amiga da Criança o futuro já começou. Um futuro em que a escola pode ser mais bonita, mais aconchegante e mais acolhedora! E pode ser séria e exigente, mas amiga do entusiasmo e divertida. E pode ser uma escola comprometida com a troca de ideias. Mais centrada na sabedoria com que as crianças lá chegam e mais empenhada na utilidade e versatilidade dos conhecimentos com que saem de lá. E pode ser mais atenta ao seu corpo, à sua imaginação prodigiosa, à sensibilidade com que interpretam e à forma como intuem, antes, ainda, de perceberem.

Queremos uma escola que se reinvente: dos tempos de escola aos manuais escolares. Do modo como avalia aos métodos com que ensina e dá a conhecer. Da forma como prepara para vida e como transforma em instrumentos úteis as pequenas coisas, aparentemente insignificantes, que se aprendem todos os dias, quase sem querer. Do jeito como educa ao modo como dá cada um dos seus professores como o exemplo do contraditório com que se aprende mais longe sempre que se aprende com mais diferenças e com mais pessoas.

6.
A escola pode ser mais bonita! E é por isso que estamos tão determinados em transformá-la. Com boas ideias, com novas formas de a vivermos e com pequenos projetos que impliquem os pais e a escola numa parceria de pessoas que se confiem à construção de crianças sábias, humildes, com garra e com paixão, mas que sejam, sobretudo, pessoas melhores. É por isso que ansiamos por uma escola que escute; mais atenta aos interesses das crianças, desde o recreio à sala de aulas. E que as ajude a pensar, a discorrer e a escolher. E é, ainda, por isso que trabalhamos para que as crianças se tornem mais comprometidas, melhor educadas e mais civilizadas. Mais implicadas com o mundo à sua volta e mais solidárias. E mais convictas na forma como, todas juntas, conquistarão para a escola, todos os dias, um rosto mais humano.

É por isso que todos nós acreditamos que com a ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA se iniciou uma “revolução tranquila” que, com a ajuda de todos, mudará a escola e transformará a educação. Com os pais, através da Confederação das Associações de Pais, reclamando para si o desafio de se ligarem à escola para que ela se ligue, mais e melhor, a tudo aquilo que leve a que os seus filhos cresçam melhor. Com a LeYa, fazendo  lobbying em nome da escola, das crianças e do futuro, deixando uma “pegada” cúmplice com o conhecimento, traduzindo em compromisso social a gratidão pela confiança que tem merecido pela produção de conteúdos culturais, e retribuindo ao reconhecer, com uma iniciativa como esta, as transformações que, desde já, a escola está a fazer para que o futuro tenha começado ontem; mesmo. Em parceria com todos os professores: como pessoas preciosas que vão de estranhos ou desconhecidos a pessoas insubstituíveis e da família, no espaço de alguns meses. Todos juntos, a construir uma escola onde conhecimento e humanidade se entrelacem mais e mais, todos os dias.


As crianças gostam que a escola goste delas. E nós gostamos que elas “fujam” para a escola! É por isso que as crianças agradecem a todos os pais e a todas as escolas que aceitaram juntar-se neste projeto! E ficarão, sobretudo, muito reconhecidas se, na segunda edição da ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA, fizerem parte daqueles que sonham e trabalham por uma escola que ligue - mais, ainda - família, escola, educação e mundo como uma ponte, irrequieta, para o futuro. Fazendo - todos juntos, todos os dias, de forma melhor - uma ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA.

Eduardo Sá


 
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