E isso dá para quê?


Têm-me perguntado várias vezes porque escolhi o curso de Física. A resposta breve é que escolhi porque gostava dessa área. A ciência tinha-me atraído logo desde o início do liceu. Essa atração foi crescendo com a leitura de obras de divulgação científica, como as de Rómulo de Carvalho, o professor de Físico-Química que foi também poeta sob o nome de António Gedeão. Escolhi a física porque, para além de gostar das respetivas aulas (os bons professores são sempre referências!), encontrei nela mistérios que eu queria desvendar. Se, como me ensinavam, o mundo é feito de átomos, eu queria saber o que existia dentro destes: o núcleo atómico, as partículas do núcleo. Eu queria afinal saber de que são feitas as coisas e por que razão elas são como são. E, pensava eu com os meus botões, eu próprio poderia porventura ser um participante da “história do átomo”, o esforço humano para perceber a realidade atómica.

Foi um sonho concretizado. Haveria, nove anos volvidos sobre a minha entrada na Universidade de Coimbra, de me doutorar em Física Teórica pela Universidade Goethe, em Frankfurt, com uma tese sobre a cisão nuclear. Lembro-me de o meu pai me ter perguntado quando eu disse, aos 16 anos, que me ia inscrever em Física: “E isso dá para quê?”. Bom, “isso” deu para ser “físico nuclear”, uma profissão que, na época (antes de Chernobyl) tinha um prestígio mais ou menos equivalente ao de neurocirurgião. Passei a investigar e a ensinar na minha alma mater. Desde aí tenho dedicado a minha vida não só a saber mais, mas também à transferência de saber, através de palestras nas escolas, manuais escolares, livros de divulgação, intervenções nos media, etc. Estou muito feliz por ter escolhido Física: pude realizar investigação não só em Portugal, mas pelo mundo, em sítios fantásticos como Copenhaga, New Orleans e Bilbau, contribuindo, ainda que de forma diminuta, com conhecimento novo. E pude também, como professor e divulgador de ciência, ajudar sucessivas levas de jovens a descobrir a física, ou mais em geral a ciência, a “bela senhora” que me tinha atraído em jovem.

A “bela senhora” continua hoje tão atraente como ontem. Estudantes do ensino secundário perguntam-me muitas vezes que curso devem seguir. Respondo sempre para fazerem como eu, irem atrás do seu sonho. Bem sei que há pessoas que ainda hoje perguntam, como o meu saudoso pai, “isso dá para quê?”. Mas acho que não se deve entrar num curso com grandes conjeturas sobre o futuro profissional e o rendimento económico. Acima de tudo temos de ser fiéis a nós próprios, seguir os nossos talentos, não trair a nossa vocação. Claro que o talento não é tudo. É preciso esforço, um esforço persistente. Mas só o sonho pode garantir essa persistência. A frase de Edison é famosa: “O génio é 1% inspiração e 99% transpiração.”

No meu curso de Física fomos só quatro os finalistas. Hoje dou aulas aos cursos de Física e Engenharia Física na Universidade de Coimbra, onde entram cerca de 50 novos alunos em cada ano. Estes cursos não têm praticamente desemprego. Entram poucos, mas saem bem preparados quase todos os que entraram. O mesmo se passa em cursos semelhantes noutras Universidades do país. Uns encontram emprego no país e outros fora do país, uma vez que a preparação recebida é uma bagagem universal.

A riqueza das nações vem hoje, mais do que nunca, do conhecimento. Falei dos cursos de Física e Engenharia Física, mas poderia falar de outros de ciências e engenharia, Química e Engenharia Química, Ciências da Vida e da Terra e tecnologias associadas, Engenharia Civil, Mecânica, Eletrotécnica e Informática, Biomédica, do Ambiente, etc. A ciência e a engenharia são essenciais na sociedade contemporânea. Nunca existiram tantos cientistas e engenheiros como hoje, porque nunca tanta gente precisou tanto quanto precisa hoje das benfeitorias que essas profissões fornecem. O futuro é incerto, mas há uma coisa que é certa: vamos precisar de mais ciência e tecnologia para resolver problemas da habitação, das comunicações, da alimentação, da saúde, da energia, do ambiente, etc. e alcançar maior bem-estar. Em todas essas áreas existem desafios, sendo necessário para os enfrentar uma preparação sólida em ciências que, começando no jardim de infância, continua no ensino básico e secundário e depois, desejavelmente, no ensino superior.
Nem todos virão a ser cientistas, mas todos podem e devem adquirir uma compreensão sólida sobre o funcionamento do mundo de modo a fundamentar bem as suas escolhas, na vida individual e coletiva.


 
Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra

 

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