Leitura e emoção


Dos muitos encontros de autor que vou fazendo, de norte a sul do país, guardo sempre as mesmas memórias: os miúdos são iguais. São iguais nas aldeias mais recônditas de Trás-os-Montes, iguais nas grandes cidades, iguais nas ilhas, no Algarve ou no coração do Alentejo. E iguais nas muitas comunidades de emigrantes que vou visitando pelo mundo fora. Quer haja empenho dos professores na realização do encontro, quer não haja preparação prévia (o que é sempre muito triste para o autor), noto que as reações ao que conto são idênticas em qualquer lugar – todos prestam mais atenção às mesmas partes da história. As expressões alteram-se da mesma forma a cada parágrafo: assustados ou divertidos, em suspense ou aliviados. Riem-se sempre nas mesmas graças: se ponho óculos num aluno que não os costuma usar ou se menciono um suposto «romance» entre duas personagens que naquele dia e naquela hora são só dois alunos que eu, teatralizando, faço passar por personagens. Digamos que as gargalhadas não variam nem com a geografia nem com o meio socioeconómico. Variam, sim, com a idade dos alunos e com o sexo, mas isso é outra história.

Quero assim dizer que há um fator que ultrapassa todas as clivagens e une os leitores mais novos: a emoção. Os alunos aprendem melhor, estão mais atentos, retêm melhor se o que lhes comunicamos, o que lhes propomos ler, estiver de alguma forma associado a uma emoção. E como distingo a emoção? Distingo-a no silêncio, lugar onde as emoções se cruzam. Os longos silêncios numa sala cheia são sintomáticos, porque acontecem exatamente nos pontos-chave onde as palavras se curto-circuitam e há qualquer coisa que os faz vibrar. No meu caso, quando o filho não encontra a mãe depois de a ter tentado trocar numa «loja de mães»; quando aquele que julgamos nosso amigo nos desilude; quando o herói é gozado por ter um pai que não tem trabalho e é só um pai; quando algo nos surpreende por afinal não nos surpreender, pois a história «está sempre a falar de mim».

Como professora que fui, como mãe e autora infanto-juvenil que sou, procuro que as crianças cheguem onde eu quero que cheguem através de um sentimento, seja ele alegria, tristeza, dor, saudade, frustração ou ansiedade. E tento fazê-lo criando identificação. Se a criança se identificar com o herói da história ou se já tiver vivido ou presenciado uma situação semelhante, vai criar mais empatia, mais proximidade e, assim, consigo mais facilmente atingir aquilo a que me proponho: criar leitores e fazê-los perceber que ler é uma caixinha de surpresas e que, em boa medida, nas páginas de um livro não vão encontrar personagens estranhas, vão encontrar-se a eles mesmos.

Nunca leio histórias, conto-as, e conto-as como sei, com emoção. Julgo que voltam para casa com o herói – eles próprios – na cabeça. Não faço qualquer juízo nem teço moralidade alguma. Também nunca lhes peço que interpretem os comportamentos das personagens. Sei que os miúdos decifram a mensagem melhor do que eu alguma vez faria. Quando vejo uma sala de dezenas de alunos totalmente em silêncio, mesmo os hiperativos, percebo que a emoção passou e que com ela transporta um mar de segredos. E esses escondem-se em cada um, muito para além das nossas palavras lidas ou contadas. Tenho para mim que os miúdos vão querer voltar à história, vão lê-la sozinhos, seguindo o texto ou as ilustrações, porque precisam de lá voltar para sentir tudo de novo. E isso é bom.

 
Maria João Lopo de Carvalho
Autora de várias coleções infanto-juvenis, todas no Plano Nacional de Leitura.
Foi professora.
Trabalhou em publicidade e assessoria em educação e cultura, na Câmara Municipal de Lisboa.
Autora de romances históricos.

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