Reza assim um poema de Gonçalo Tavares:
 
A alegria é um catalisador de uma experiência científica; a tristeza, um inibidor.
A tristeza encolhe; como pode um homem triste descobrir algo?
Só quem é alegre arrisca.
A tristeza é anticientífica.

Alegria: aí está o catalisador que tenho tentado desenvolver nestas três décadas como professora de ciências. Digo que ando a desenvolver, porque os catalisadores são específicos, já sabemos. O que resulta com uns alunos, não resulta necessariamente com os outros, ou seja, não há receitas. Fazer das aulas momentos de alegria nem sempre é fácil, mas torna tudo mais fácil. E porquê? Porque os alunos reagem tão bem à alegria e entusiasmo de um professor!

O que faz um professor ir cheio de entusiasmo para a aula? Estar empolgado com o que preparou para os seus alunos, estar expectante com a continuação dos progressos que está a conseguir com cada um, mas especialmente com os alunos mais difíceis, aqueles que nos desafiam.

Considero que os professores de ciências têm ferramentas especialmente poderosas para injetar entusiasmo nas aulas – propor desafios para os alunos descobrirem, explorar o campo ou o parque urbano, fazer experiências ou simplesmente manipular materiais para construir modelos dos fenómenos em sala de aula. Suja-se mais a sala, faz-se mais barulho, perde-se mais algum tempo a preparar as aulas, mas vale mesmo a pena.
Já sabemos da impossibilidade de estar 90 minutos sentado a ouvir atentamente um professor. Quebrar a aula a meio para “pôr as mãos na massa” é aprender de outra forma, que para alguns alunos é essencial, porque precisam de “ver” e “mexer”. E atribuir a liderança destas atividades aos alunos que não conseguem estar sossegados é geralmente uma boa estratégia.

Muitos dos alunos mais irrequietos têm uma notável inteligência prática. Se eu precisar de resolver um problema mecânico num microscópio ou encontrar um atalho da escola para onde quer que seja, é o “meu aluno terrível” que vai ser capaz de ajudar. Dar espaço a estes alunos para, na sala de aula, mostrarem as suas habilidades, os seus saberes práticos, é dar-lhes autoconfiança, alegria, entusiasmo.

Os projetos do clube de ciências da escola são especialmente profícuos nesta aprendizagem da importância de cada um, na sua unicidade, para os objetivos que são de todos. Se um elemento do grupo tem especial facilidade para pesquisar no computador a informação de que todos precisam para delinear a experiência, outro terá o espírito prático necessário para improvisar os materiais e montar o dispositivo da investigação. Em contrapartida, será ainda um outro a liderar o registo e tratamento de resultados, com um rigor e uma responsabilidade que nenhum dos outros iguala. Não será esta uma aprendizagem essencial para a vida?

Os princípios que estão na base dos novos desafios da flexibilização do currículo exigem que o professor conheça bem os seus alunos, para que cada um se sinta valorizado e incluído. Isto exige que as políticas educativas garantam mais tempo para a interação, retirando tempo às tarefas burocráticas dos docentes, mas exige também um esforço do professor para rentabilizar essa interação no sentido de valorizar o que cada aluno tem para dar. O trabalho prático em ciências é um contexto perfeito para esta tarefa.

Os projetos de ciências são especialmente interessantes para os alunos compreenderem que o saber não está fechado em caixinhas. Resolver um problema prático ou fazer uma investigação, assim como comunicar os resultados, são tarefas que implicam necessariamente mobilizar muitos conhecimentos e competências que é preciso ir buscar às gavetas onde se arrumaram as matérias.

Em suma, o aluno aprende quando se entrega com alegria e entusiasmo às tarefas escolares. Este prazer exige que ele seja desafiado, compreenda o objetivo das tarefas propostas e sinta que o seu contributo é valorizado, mesmo quando tem dificuldades em tarefas que para outros são básicas. Os trabalhos práticos em ciências são, na minha opinião, suficientemente diversificados para incluírem todos os alunos, na sua diversidade de perfis.

Paula Canha
Licenciada em Biologia (Univ. Aveiro, 1987) e Mestre em Biologia da Conservação (Univ. Évora, 2010)
Professora desde 1995 na Escola Sec. Dr. Manuel Candeias Gonçalves, onde tem orientado alunos do Clube de Ciências na realização de projetos científicos autónomos, muitos deles premiados a nível nacional e internacional
Tem recebido diversos prémios e distinções, entre os quais Prémio de Mérito Inovação do Prémio Nacional de Professores, organizado pelo Ministério da Educação, em 2007
Tem-se envolvido em diversas atividades técnicas e científicas, entre as quais o Estudo de Incidências Ambientais do projeto Rota Vicentina
Coautora de manuais escolares e de artigos científicos

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