O 10º Ano

Findo o primeiro período, os pais de muitos adolescentes que frequentam o 10.º ano estarão entre a perplexidade, a zanga, um cardápio saltitante de castigos e uma atitude mais ou menos atónita ou incrédula diante dos primeiros resultados escolares dos seus filhos. A dúvida será: que vendaval terá acontecido para que, quase de um momento para o outro, as notas boas e, razoavelmente, estáveis dos seus filhos se tenham “constipado” (nalguns casos) gravemente, a ponto de eles não parecerem os mesmos. Onde, dantes, existia brio, empenhamento e tenacidade terão surgido, agora, sinais de algum “tanto faz”. A “desmotivação” transforma-se numa “palavra de ordem”. Surge a primeira negativa. Também as primeiras dúvidas em relação à área de estudo escolhida. E um “rombo” significativo na grandiosidade dos projetos profissionais que, ao longo dos anos, se foram delineando.

A questão fundamental que se deve colocar será: é o 10.º ano que estraga os adolescentes ou, pelo contrário, é a adolescência que os desfoca da escola? Vamos tentar responder.

A adolescência não é, realmente, um período fácil. Muda o corpo e muda a cabeça. Os grupos passam por rearranjos, por vezes, profundos. A relação com os pais assume outra “textura” e, dependendo deles e do próprio adolescente, por vezes, fica difícil. Há uma reviravolta - essa sim, profunda - da perspetiva sobre a vida, o futuro, o amor, a amizade, as grandes causas sociais, a política, a justiça e, claro, sobre os pais. Haverá, ainda, os primeiros “flirts”, os primeiros “amores de perdição”, os primeiros encantamentos mútuos e os primeiros namoros. A própria família terá, ela mesma, os seus sobressaltos. Mas (e este “mas” deverá ser sublinhado!) por mais que tudo aquilo que se passa à sua volta lhes toque e interfira com eles, e por mais que haja alguns caprichos mais “esdrúxulos” no comportamento dos adolescentes, a resposta à pergunta que ficou em aberto é: o 10.º ano “estraga” os adolescentes. Ou, se preferirem de outro modo: por mais que algum “burburinho” que acompanha todas as adolescências saudáveis se observe sempre, se a escola se for traduzindo num retorno de classificações dentro do esperado, não será a adolescência só por si que o enviesa.

Sendo assim, o que se passa, então, no 10.º ano que altere tão significativamente o rendimento escolar de um adolescente?
 
  • O facto do 10.º ano ser “outro campeonato”. Com maior exigência de estudo. Com professores mais diferenciados. Com mais autonomia dos próprios adolescentes, em termos de gestão de tempo e de planeamento de estudos. Com métodos de avaliação que apelam mais ao compreensivo do que ao “marra, vomita, e esquece” no qual muitos adolescentes se dobram “viciando”. Com apelo à existência de um método de estudo que, grande parte deles, até aí, talvez nunca tenha tido. Com maior competitividade, maior rivalidade e, por vezes, mais deslealdade entre eles. E com maior necessidade de gestão de expectativas, de “metabolismo” das frustrações, e de convívio com alguma dor e com conflitos mais frequentes, claro. E, finalmente, com a consciência de que “agora, tudo é a sério”. Tudo conta, portanto. Tudo soma.
 
  • A gestão que as próprias escolas fazem do ensino secundário. Acentuando a importância dos “exames” de uma forma exorbitante. E criando formas, inacreditavelmente, díspares de gerirem áreas científicas e estudos humanísticos, alunos, apoios, etc.
 
  • A progressiva ausência de uma mãe que estuda e faz resumos com um filho. E de uma “equipa a trabalhar para ele” em todas as disciplinas, fora da escola, como, muitas vezes, sucedia até aí.
Sem prejuízo da existência de outros fatores, a convergência (súbita!) de alguns destes aspetos a “chocar de frente” com uma autoestima (porventura, com um “valor facial” sobredimensionado, como é normal que exista!), e projetos pessoais e profissionais grandiosos no curto/médio prazo (que faz de qualquer adolescente saudável num “dono do mundo”) faz com que, aos primeiros maus resultados, um adolescente entre em pânico. “Bloqueie”. Se assuste. Se atrapalhe todo. Ao mesmo tempo que evite pensar nos resultados e na forma de contornar e fuja, por isso, de estudar, se proponha estudar tudo ao mesmo tempo, quase de um dia para o outro. Até a um determinado momento em que sente “o chão a fugir debaixo dos pés” e, de alarme em alarme, declara, num pranto, que não consegue estudar.

Mais tarde será razoável conversarmos acerca da forma de os pais gerirem com mais segurança tudo isto. Por agora, centremo-nos na escola. Por mais que nem todos os adolescentes reajam assim - mas nunca perdendo de vista que há muitos, muitos que sofrem com tudo isto (e que, entre setembro e novembro sentem não só ter comprometido todos os projetos que terão erguido até aí como ter desiludido as expectativas dos próprios pais) - não seria sensato que o primeiro período do 10.º ano não contasse para efeito de média? Não seria importante evitar que, depois dos primeiros resultados “adoentados” se evitasse um verdadeiro “efeito de dominó” entre reações assustadas e “fugas para a frente” diante de notas que ficam aquém de tudo aquilo que se sonhou? Não seria de ter em relação a estes adolescentes uma atitude mais compreensiva evitando que, em contexto de teste, eles fiquem num registo de um pânico quase permanente, bloqueando no mais “básico do básico”, tantas vezes? Aprender não devia supor dar-se oportunidades para que se aprenda com os erros?
Por Eduardo Sá