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Desculpem, mas hoje irei voltar aos trabalhos de casa. Porque é que hei de pedir desculpa por isso, perguntei-me eu? Porque tenho receio de que a escola esteja tão demasiado “partida ao meio” entre aqueles que são a favor e os outros que são contra os trabalhos de casa que receio que, ao tentar conciliar as duas posições e ao dar uma opinião sobre elas, possa ser mal interpretado. Na verdade, parece-me, que esta questão dos trabalhos de casa se extremou de tal forma que se passou a assumir que há quem seja amiga do empenho; e os outros, supostamente, um bocadinho cúmplices do facilitismo. Ora, a mim nada disto me parece razoável.

Comecemos pelo princípio. Já disse e já repeti que as crianças trabalham demais. Têm um exagero de horas de aulas por semana. As escolas que frequentam têm vindo a encolher, assustadoramente, o tempo dos recreios. As aulas são, sobretudo, expositivas. E o ensino acaba por ser mais amigo do reproduzir e do repetir do que do recriar e do repensar. Como se nada disto já não fosse demais, as escolas prolongam as atividades letivas pela tarde. E, em vez de as crianças terem atividades lúdicas ou desportivas, muitas delas ainda passam pelo “estudo”, por explicações ou por ateliês de tempos livres (“tempos livres”, leu bem) para que façam os trabalhos de casa antes do jantar. Às vezes, reconheço, é com surpresa que reparo que ninguém pare e pergunte se o cansaço ajuda a aprender. Se as aulas (intermináveis) de 90 minutos estimulam a atenção. Ou se um comboio de conteúdos expostos sem espaço para os conversar, para trocar dúvidas e para que, a propósito deles, se ponham perguntas, ajuda a curiosidade e aprofunda o conhecimento.

É neste contexto que, francamente, não consigo entender que haja escolas que, não contentes com tudo isto, ainda exijam que os alunos tenham, diariamente, (muitos!) trabalhos de casa. Porquê? - pergunto eu. O que é que, em consciência, acharão que as crianças ganham com isso? Aprendem mais? Conhecem melhor? Que “cultura de sacrifício” é esta que parece empurrar as crianças para as mesmas asneiras dos pais sempre que não olham para aquilo que não produzem mas, apesar disso, ficam mais “sossegados” quando passam horas e mais horas no trabalho? É claro que, num contexto destes, sermos “contra” os trabalhos de casa só pode ser sensato. E, por mais que não pareça, representa uma salvaguarda para a relação das crianças com o conhecimento e com a escola.

É evidente que, mal nos insurgimos contra esta versão “clássica”, “mecânica” e repetitiva de trabalhos de casa, há quem insinue que não estamos a ser amigos nem da escola nem do futuro. E eu acho graça. Porque chamar a atenção para a insensatez destes trabalhos de casa “clássicos” não quer dizer que se seja contra a ideia de trabalho em relação às crianças. Por mais que me incomode que muitos pais falem da escola como “o trabalho das crianças”, como se tudo o mais, para além dela, não fosse merecedor do seu empenhamento.

Sejamos, pois, claros: o trabalho faz bem às crianças. Mas com conta, com sensatez e com medida! É com trabalho que se conquista a capacidade de olhar e de sentir a vida e as pessoas. É com trabalho que, a partir da experiência, se moldam perguntas. E, partindo delas, se constroem problemas. E é, igualmente, com trabalho que, de pergunta em pergunta, se põem dúvidas, se sintetiza, se discorre e se pensa. Em resumo, aprender torna-nos mais capazes de namorar com o amor e com a beleza. E tudo se conquista com trabalho.

Por outras palavras, a escola serve para pôr problemas. E isso não é fácil. E serve, sobretudo, para descontruí-los, pensá-los e vencê-los. E tudo isso dá trabalho e exige método. Mas, sendo assim, faz sentido sermos a favor ou contra os trabalhos de casa? A favor! Mas nunca daqueles trabalhos de casa que pressupõem que quanto mais se repete melhor se aprende. Nem daqueles que fazem do aprender, unicamente, um sofrimento e um sacrifício. E pressupõem que, depois de as crianças se levantarem às sete, se repartirem por aulas e mais aulas (e algumas correrias entre elas) das 8 às 8, que elas nunca se cansam, nunca se distraem, não têm gosto, nem têm querer. E que, portanto, entre o banho e o jantar, a cambalearem e sem terem cabeça para pensar, lhes faz muito bem que tenham contas, textos, e mais um desenho para os adornar, antes de irem dormir.

Se já me custa que as crianças gostem mais do recreio que das aulas, porque as aulas são menos recriativas (o português é bonito, não é?) do que deviam, que elas “odeiem” os trabalhos de casa, quer dizer que, para além de eles serem, na maior parte das vezes, um castigo, elas já perceberam que - com exceções, é claro - eles não lhes servem para quase nada. Mas, pergunto eu, porque é que os trabalhos de casa não podem ser levados para a escola, no dia seguinte, uma ideia, uma pergunta, um problema, uma história, uma experiência ou, mesmo, um livro que se leu? Porque é que os trabalhos de casa não nos podem tornar mais atentos e mais inteligentes? Porque é que não se pode trazer da escola uma tarefa como ir ao jardim, ao parque, a casa dos avós ou aonde os pais entendam e encontrar um bocadinho de mundo ao qual se aplique uma ou duas coisas novas que se aprendeu na escola, nesse dia? Desde quando é que querer as crianças a acarinhar o conhecimento é ser contra o trabalho, contra os trabalhos de casa, contra a escola e contra o aprender?

Tenhamos, pois, bom senso. Mais aulas não representam mais autonomia, mais tenacidade e mais argúcia. E mais trabalho - sempre mais trabalho - não significa mais criatividade, mais produtividade, mais humildade, mais cooperação e mais esperteza! Não seria, então, altura de reinventarmos os trabalhos de casa? E não seria altura de os pais serem a favor do direito à greve aos trabalhos de casa na sua versão “clássica”, sempre que eles estragam, prejudicam ou tornam os seus filhos um bocadinho mais “estúpidos”? 
    Por Eduardo Sá  
     

       
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