E tempo para ser feliz?


               Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… O tempo passa e nós temos de realizar todos os nossos projetos. Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… O tempo passa e nós temos de aproveitar. Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… O tempo consome os nossos dias sempre iguais: Estou atrasada… Entro às 9h… Só tenho meia hora para almoçar… Reunião às 15h… Ginásio às 18h… Ir buscar os filhos às 19h… Jantar às 20h… Pôr os filhos na cama às 22h… Trabalhar até às 24h… Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… Dormir pelo menos 6 horas. Quem me dera ser criança outra vez! As crianças brincam quando querem, não têm preocupações nem horários…

               Mas, que crianças são estas? Será que ainda existem? As crianças de hoje levantam-se cedo e passam o dia na escola. As aulas por turnos, apenas de manhã ou de tarde, é coisa que já não existe. Os intervalos são praticamente inexistentes. Tudo porque é preciso trabalhar. Há muito matéria para aprender e um futuro para vencer. Temos de nos apressar. Não podemos perder tempo. E depois das aulas, o horário continua: desporto, inglês, explicações, música… Um sem-número de atividades que, não raro, se prolongam até à hora do jantar (ou além dela). Quando chegam a casa, as crianças ainda têm de estudar e fazer os trabalhos de casa. Seria difícil imaginar um horário mais preenchido e esgotante, mas a miragem de um futuro de sucesso justifica tudo.

               As crianças de hoje são pequenos adultos de fato e gravata ou de tailleur a quem a sociedade não concede tempo para brincar ou simplesmente para não fazer nada, a quem a sociedade exige o cumprimento de objetivos pragmáticos tão rígidos como os dos adultos que sonham voltar a ser crianças: Tens de ter boas notas… Tens de ser o melhor… Não podes ser suplente… Estuda… Esforça-te mais…

               Ser feliz exige tempo e espaço e liberdade de ação. Nenhuma sociedade excessivamente dependente dos horários tem tempo para a felicidade. Nenhuma sociedade consciente pode querer escravizar o seu futuro. É fundamental parar para repensar o caminho que se segue porque todas as ações têm consequências. Faz sentido criar crianças infelizes na esperança de que estas venham a ser adultos de sucesso e, portanto, felizes? Esta máxima não é demasiadamente perversa e quase maquiavélica?
Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… Temos pressa de crescer para sermos iguais ao que já somos. Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… Desenhamos crianças iguais a nós para que depois estas tenham saudades do passado que nunca tiveram. Tiquetaque – tiquetaque – tiquetaque… Acorda! A felicidade é agora!



 

Carla Marques
Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares (Edições ASA-LeYa); formadora de professores; professora dos ensinos básico e secundário; consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
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