Os insucessos não se preparam de véspera. O grande desafio de um insucesso - nas crianças como em nós - passa por sabermos se as pessoas que são mais importantes na nossa vida são capazes de conviverem com a nossa tristeza. Na verdade, elas estão sempre lá, ao nosso dispor, mas nem sempre a aceitam e acolhem.
Muitos pais afligem-se com a tristeza dos filhos como se lhes dissessem: se tu estás triste, tu pões-me triste... E, quando é assim, uma criança dói-se por estar triste e assusta-se ao sentir que a sua tristeza será estranha (ou mais ou menos misteriosa) para os seus pais. Isto é: a tristeza é inevitável quando vivemos um fracasso. Mas quando as pessoas que nos amam se assustam com a nossa dor, perdura a tristeza que nos assalta e é acrescida pelo desamparo que a falta de acolhimento que ela desencadeou terá merecido. Ora, é muito importante que os pais sintam os filhos. Mas, mais precioso, ainda, é que eles percebam que a tristeza ajuda a esclarecer se as pessoas que nos amam nos sabem amar. Sendo assim, a tristeza é o melhor anti-depressivo do mundo! Porque quanto mais podemos estar tristes e mais sentimos que as nossas dores nos dão mais e melhores pais, mais nos tornamos audazes e guerreiros.
Tenho medo, portanto, que os pais tenham construído um ideal dum crescimento anti-depressivo para os seus filhos e seja isso que mais os deprime. Ao contrário daquilo que, seguramente, eles desejam. Ao contrário dos perigos que eles veem ou imaginam à volta da vida das crianças. E ao contrário daquilo que a sua bondade deixaria supor. Sendo assim, pais bondosos não exageram na prevenção da dor. Deixam que o improviso da própria vida faça o seu trabalho porque eles sabem que, no caso dum filho se magoar, eles são quem mais os torna corajosos, mais audaciosos e mais tenazes. Já, ao contrário, crianças que fogem da dor são crianças que se tornam de "porcelana": frágeis e fóbicas, portanto. Porque a melhor forma de ficar preso a uma dor é fugir dela.
Eduardo Sá