A escola que hoje ainda temos é uma invenção da revolução industrial. Era necessário escolarizar largas massas da população campesina para poder ler os manuais de instrução que punham em marcha as roldanas das fábricas. E treiná-la para se disciplinar numa ordem mecânica, repetitiva, baseada no comando e no controlo.

A escola é, assim, uma invenção das necessidades de produção dos tempos modernos tendo prestado relevantíssimos serviços de natureza funcional. Era preciso homogeneizar, estandardizar, disciplinar, ordenar as vontades e os gestos. Era preciso assegurar que a passagem do campo para a fábrica assegurasse os mecanismos de uma produção regrada.

Mas, para além deste imperativo produtivista, a escola cumpria ainda uma importante função social e política de natureza ideológica. Era preciso que fosse uma agência de uma socialização mais ou menos passiva, que os “cidadãos” aceitassem ser funcionários de um estado, em muitos casos emergente, e que contribuísse para a sua constituição e legitimação.

Esta escola seguiu o padrão da fábrica, da cadeia de montagem. Dividiu e segmentou os modos, os tempos, os espaços de produção. Especializou e hierarquizou as pessoas em séries. Organizou o trabalho numa lógica de reprodução e repetição. Alienou e escravizou as pessoas.

A escola passou, assim, de uma ordem limitada, artesanal e pessoal para uma ordem de produção em série, tendo a capacidade de formar milhões de pessoas para viverem num outro mundo empresarial e político. E não há dúvida que esta revolução nos modos de ensinar – do ensino individual para um ensino coletivo, do ensinar a todos como se todos fossem um só – correspondeu a um considerável avanço na massificação e democratização do acesso à instrução. Esta passagem parecia assegurar o ideal proclamado por Coménio (1976: 45) na sua notável Didática Magna publicada no início do século XVII [1627]:

“Nós ousamos prometer uma Didática Magna, isto é, um método universal de ensinar tudo a todos. E de ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados. E de ensinar rapidamente, ou seja, sem nenhum enfado e sem nenhum aborrecimento para os alunos e para os professores, mas antes com sumo prazer para uns e para outros. E de ensinar solidamente, não superficialmente e apenas com palavras, mas encaminhando os alunos para uma verdadeira instrução, para os bons costumes e para a piedade sincera."

 
Esta ilusão tecnocrática e romântica de tudo ensinar a todos com prazer está longe das evidências empíricas.

A escola que hoje, no início do século XXI, ainda temos é ainda a herdeira de uma gramática que tem início na revolução industrial  e que sumariamente se carateriza pela separação e hierarquização dos conhecimentos, pela divisão dos espaços, pela segmentação do tempo, pela separação dos alunos em anos e turmas, pela separação dos professores em níveis e especialidades, pela alocação rígida de professores a alunos, por uma pedagogia coletiva e uniforme, por dar o mesmo a todos no mesmo espaço e no mesmo tempo.

A escola que queremos tem, pois, de ser muito mais flexível, muito mais variada, muito mais sensível à diversidade de inteligências, ritmos e vontades. Tem de atender às pessoas e colocar as aprendizagens de todos no centro das suas preocupações e da sua organização. 

 
José Matias Alves
Professor Associado Convidado na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa
Diretor Adjunto da Faculdade de Educação e Psicologia
Coordenador do Serviço de Apoio à Melhoria da Educação (SAME)
Coordenador do Doutoramento em Ciências da Educação
Membro integrado do Centro de Estudos em Desenvolvimento Humano (CEDH-UCP)
Autor de livros e artigos no campo da administração e organização escolar

 
< Ir para a lista de artigos de opinião