Duas escolas diferentes. Duas amigas para a vida.


Tenho na memória que na minha infância o ano letivo começava no dia 7 de outubro, apenas dois dias depois do meu aniversário. Com três anos acabadinhos de fazer, iniciei o meu percurso escolar num colégio situado num dos bairros mais elegantes de Lisboa. Eu e o meu irmão, pouco mais velho do que eu, todos os dias atravessávamos a cidade na carrinha às riscas vermelhas e brancas, conduzida pelo amável Sr. Alfredo. O destino era um pequeno palácio que, com a sua torre cilíndrica em pedra, parecia saído de um conto de fadas.
Era um colégio progressista. Mesmo antes do 25 de abril, tratávamos os professores pelo nome próprio e respirava-se proximidade, doçura e descontração. Ao contrário das escolas primárias da época, onde as palavras que as definiam eram exigência, rigor e , tantas vezes, medo.

Em 1974, frequentava eu a 3ª classe e o meu irmão já tinha saído do colégio, fui levada pelos ventos de mudança e pedi aos meus pais para me inscreverem na escola onde andava a minha maior amiga. Sendo a minha mãe professora do ensino básico, sabia que se tratava de uma escola exemplo feita por professores que amavam a sua profissão e se comportavam com os seus alunos como pais preocupados com a disciplina e as notas. Era uma escola pública, situada a poucos passos de casa e perto de um bairro social. O edifício moderno e de linhas direitas dividia-se no sector dos meninos e das meninas, ao contrário do palacete em pedra com soalho de madeira e janelas de guilhotina, onde não havia qualquer tipo de distinção sexual. Em vez da jovial Lurdes, quem comandava as tropas era a austera Dona Lídia à beira da reforma. As mesas, com tampo de fórmica colorido, haviam sido substituídas por secretárias quase centenárias de madeira maciça e tampo movível. Não havia aulas de expressão artística, de equitação ou visitas de estudo, mas podíamos contar com o rigor no ensino do português, aritmética, geografia, história e também com a sabedoria de quem conhecia uma realidade mais ampla e muito mais dura.

Lembro-me de que tanto no colégio como na escola pública havia meninas com o sonho ingénuo de quererem ser caixas de supermercado. Mais tarde, quando já tinha a consciência que não era a melhor profissão para se desejar, deparei-me com uma das minhas colegas da quarta classe a registar-me as compras num estabelecimento não longe da nossa escola.

Fui feliz nas duas escolas. Ainda hoje me sinto grata para com os educadores, professores, funcionários e, claro, com o Sr. Alfredo que fazia com que as longas horas que passávamos na carrinha se tornassem numa inesquecível visita guiada por Lisboa. Tive a sorte de, desde muito cedo, perceber que uma escola amiga tanto pode ser privada, situada numa zona privilegiada, como pública, junto de um bairro social. De formas distintas, ambas nos faziam sentir que tudo era pensado para o nosso bem.

A iniciativa Escola Amiga está de parabéns. Desejo que o futuro seja construído por escolas que ajudem as comunidades, pais e crianças a acreditarem que não há fórmulas certas para alcançarmos o que sonhamos. O grande segredo é o respeito pela diferença, a vontade, a partilha e a união.

Isabel Zambujal